Meu passado me persegue até mesmo em meus
sonhos.
Acordei assustada, minha respiração era ofegante.
Sentei na beirada da cama passando a mão sobre algumas
mechas do cabelo. “É hoje!” pensei comigo mesma. Eu já havia imaginado milhares de
vezes este reencontro, mas algo gritava dentro de mim me dizendo que não seria
da maneira que eu esperava.
Nem todos ficariam tão felizes assim com meu retorno e
com certeza alguns duvidariam da minha sanidade.
Levou alguns minutos para sair de meus devaneios.
Peguei a peça de roupa que havia reservado pra hoje e me
dirigi ao banheiro. Aquele foi o banho mais rápido que já tomei.
Quando acabei,
regredi ao cômodo 112, e me despedi dele –
Afinal, por sete anos chamei isto de
quarto, e carregando as singelas malas pretas, passei pela última vez no
corredor do dormitório.
Estava no topo da escada quando vi a agitação formada no
térreo. May liderava o grupo com entusiasmo.
Lá estavam alguns internos assim como eu – literalmente – e duas enfermeiras.
Soltei uma sincera risadinha no canto da boca, desci as escadas e coloquei as
malas no chão. Recebi abraços de todos ali. May foi à última a me abraçar, e
claro, junto com o abraço, veio o discurso.
—Iremos sentir saudades Amélia. —May disse ao me soltar,
pude ver por uma fração de segundos, as lentes arredondadas de seu velho óculos
embaçadas.
—Também sentirei May. —Soltei um leve suspiro. Talvez
fosse como se eu estivesse me libertando de algo, era difícil de explicar. —Ele
já chegou?
—Sim. Já faz uns quinze minutos. Ele está no jardim. —May
disse calmamente, o que era típico. Meu coração pareceu saltar da boca, e por
um instante, não sabia o que fazer.
—Obrigada May. —Eu disse depois de um silêncio. —Por
tudo.
—Não há de que Amélia. —May sorriu. —Mas guardar raiva e
rancor não faz bem a ninguém. —E o sorriso formado em seu rosto, logo deu
espaço para a expressão séria e entristecida. Como havia dito antes, May
poderia ter muito a ensinar ainda.
—Irei lembrar disto, pode deixar. —E deixando-os,
caminhei até o jardim.
Girei a maçaneta e a puxei. A porta se abriu, revelando
um dos lugares que eu mais apreciava naquele hospício. Talvez por que fosse o único lugar em que houvesse algo literalmente
vivo. Os raios de sol daquela manhã eram fortes e intensos.
Com dificuldade avistei a figura de social sentada no
banco ao fundo. Não tive dúvidas, era ele.
Aproximei-me cautelosamente do banco, confesso que em
algumas vezes minhas pernas chegaram a falhar, mas nada que chegasse a me
impedir.
—Pai? —A voz saiu falha, minhas mãos suavam frio e por um
instante, senti vontade de chorar.
Ele percebeu minha presença e de imediato se levantou. Estava
do jeito que eu me lembrava. O negro cabelo agora aparentava ter alguns fios
grisalhos que foram causados pelo tempo, mas os olhos azuis estavam iguais.
Aqueles olhos azuis já foram o meu conforto.
—Amélia, como você cresceu. —Papai exclamou. Era como se
estivesse mais orgulho do que feliz. Corri para abraça-lo. Aquele foi um abraço
gostoso, reconfortante, com certeza uma das coisas que me fez falta.
—Claro que cresci. Eu não poderia encolher. —Respondi.
Ele soltou uma singela risada.
—Pelo visto você não perdeu a graça, Tampinha. —Ele me
soltou e logo em seguida me fitou dos pés a cabeça, como se não acreditasse no
que os olhos presenciavam.
—Não me chame assim. —Falei com a voz manhosa. Eu odiava esse apelido. —Então... —Dei uma
pausa. —Onde está Bruce? —Perguntar
por meu irmão foi à primeira coisa a fazer que me veio à cabeça. Lembro dos
pequenos momentos de felicidade da minha infância, em que brincávamos como se
não houvesse amanhã. Éramos realmente unidos.
—Ele não veio comigo Querida. —Só pela tristeza estampada
na face do meu pai, pude perceber que as coisas não estavam bem entre eles. Ás
vezes eu não precisava do meu segredo
para saber que algo estava errado.
—Não tem problema. —Disse soltando um meio sorriso. —De
qualquer maneira, eu deveria saber que haveriam mudanças. Ainda está casado com Catarina?
—Ele revirou os olhos. Dentro de si, implorava para não ter que tocar neste
assunto tão cedo.
—Eu sei que vocês duas não se davam muito bem, mas ao
menos tente ser gentil com ela, Amélia. É importante pra mim. Depois de tantos
anos terei minha família reunida novamente. —Sei que não foi sua intenção, mas
ao terminar de ouvir esta frase, me senti a grande vilã da história. Meu pai
tratava Catarina como se fosse uma Deusa, e sempre fazia suas vontades. Ela era
um dos motivos pelo qual vim parar aqui.
—Gentileza não é bem meu ponto forte. —Ele riu. —Mas
prometo TENTAR.
—Obrigado Querida, significa muito para mim. —Fez uma
pausa e suspirou. —Além disto, tem um quarto novinho esperando por você lá em
casa. —No momento me bateu certa nostalgia. Isso soou como há anos atrás,
quando eu finalmente conseguia o que queria, ele vinha me paparicar com sua
imitação de voz fajuta do Elvis.
—Éh... Acho que tenho que me acostumar a certas mudanças.
—Concordei. —Mesmo que algumas sejam completamente banais. O Senhor não tinha
esse bocado de pelo rodeando a boca.
—Não está sendo fácil para mim também. —Papai exclamou. —Da
última vez que te vi, você não usava sutiã, tampinha.
—Ele me fez o encarar torto.
—Não me chame assim. —Briguei.
Ele passou o braço sobre meu ombro, e assim, caminhamos
de volta para o saguão principal.
O vi colocando as malas no carro. Lembro-me
de ter acenado para May uma última vez. Depois disso, vi o sanatório diminuir
conforme nos afastávamos.






























